Filho de Peixe sabe nadar?




Será uma boa genética uma condição suficiente, necessária, ambas, ou nem uma condição para o sucesso desportivo?
No mundo moderno, torna-se cada vez mais comum, grandes atletas, de
nível mundial, terem acompanhado as carreiras dos seus progenitores e
apaixonarem-se pela mesma modalidade que observam sistematicamente, de forma a quererem dar seguimento ao seu
legado paterno.
Mas será que o seu sucesso tem apenas implicações genéticas ou terá, também, influências ambientais?
Naturalmente, filhos de jogadores de futebol, de basquetebol, entre outros desportos, entram em contacto com a atividade desportiva dos seus pais desde o início da sua vida, mais cedo do que muitas outras pessoas têm qualquer tipo de interação com algum desporto. Assim, isto poderá desenvolver uma apetência à prática da modalidade dos seus pais de forma prematura e espontânea. Todavia, nada implica que os filhos dos jogadores vinguem no desporto dos pais, ou que sejam tão bons quanto eles, podendo chegar a um alto nível, mas também nunca chegarem a praticar desporto, havendo inúmeros exemplos significativos do mesmo.
A nosso ver, sem trabalho árduo e dedicação a nível de treino, alimentação e foco pelos objetivos delineados e pela modalidade praticada, entre tantos outros elementos, nunca será possível algo como a "genética predisposta" a uma determinada atividade de alguém, que a possua por ser filho de um jogador, ser suficiente para o alcance do êxito, uma vez que todo o processo de formação de um atleta tem circunscrito um elevado número de fatores que o podem encaminhar ao sucesso, sendo alguns deles os abordados neste artigo.
Deste modo, a hipótese de o contexto em que um indivíduo se desenvolve e de a genética que este possui chegarem para o alcance de níveis de performance elevados é refutada por inúmeros exemplos práticos, nomeadamente o dos filhos de Zinédine Zidane, que, apesar de terem vivido as suas infâncias com o acompanhamento de um dos maiores jogadores de futebol do seu tempo e treinadores mais titulados do mundo, nunca conseguiram vingar nesse mesmo desporto. Pelo menos a um nível comparável ao do pai enquanto jogava, visto que nenhum deles – à exceção do segundo mais novo – integra uma equipa com objetivos claramente orientados à conquista de títulos, ou mesmo a seleção nacional do seu país, ficando todos um pouco aquém das expectativas criadas. De referir, ainda, que o mais velho, Enzo Zidane, já atuou em Portugal num clube de ambições muito pequenas, o GD Aves, na antiga "Liga NOS".
Por outro lado, também se observa o fenómeno contrário dentro do mesmo "mundo", em que, de facto, "filho de peixe" soube "nadar", como Kasper Schmeichel, filho de um lendário guarda-redes dinamarquês, Peter Schmeichel, que se tornou o guarda-redes titular indiscutível do seu país e do Leicester City, clube que representou durante mais de uma década, no qual conquistou todos os títulos do seu palmarés.
Desta forma, o que podemos concluir com base nestes exemplos?
A realidade é que todos os exemplos são, de facto, filhos de ex-jogadores do mesmo desporto que praticam, pudendo assumir-se que, em todos estes casos, os descendestes possuem uma genética "predisposta" à prática do futebol, sendo um exemplo claro disso a altura de ambos os Schmeichel, que favorece a defesa. Para além disso, os filhos tiveram uma convivência com o seu – e dos seus pais - desporto de eleição desde muito cedo, tendo-lhes sido oferecidas oportunidades excelentes, das quais nem todos os jovens atletas disponibilizam, como a realização da formação no Real Madrid, a sua integração natural na equipa B e, posteriormente, na equipa principal do clube Merengue, nos casos dos filhos de Zinédine.
Logo, olhando para os resultados de todos os percursos desportivos dos diferentes atletas, deduz-se que, nos diferentes casos apresentados, existiu algo que atuou de maneira distinta entre eles, para que fossem formados tanto jogadores medianos, como um guarda-redes de elite, mediante tudo aquilo que possuem em comum.
Assim sendo, será que os filhos dos diferentes jogadores tiveram métodos de treino diferentes ao longo das suas vidas? Será que as inevitáveis pressão e expectativa, criadas por serem filhos do "galáctico" Zidane, – nos primeiros exemplos dados – influenciaram negativamente o rumo que as carreiras dos Zidanes mais novos tomaram? Será que o "Schmeichel filho" teve uma adoção do desporto menos forçada por parte do pai?
Com todas estas dúvidas a emergir, apenas podemos julgar que fatores extrínsecos às genéticas dos jogadores e às suas experiências como filhos se fizeram sentir claramente e que tiveram resultados divergentes. Desde já, todos eles podem ter tido práticas diferentes nos momentos de treino, já que nenhum momento é vivido da mesma forma por qualquer pessoa, podendo não ter sido realizada uma prática deliberada eficiente – isto é, um treino consistente e proveitoso para as especificidades de cada atleta - , assim como iniciação na formação mais ou menos forçadas. Mas, aquilo que pode ter tido mais influência no sucesso ou insucesso dos exemplos é mesmo a maneira como a expectativa inevitável, criada à volta de cada um dos indivíduos, atuou e a reação que tomaram perante essa adversidade.
Em suma, com os exemplos de todos os jogadores de futebol, conseguimos concluir que tanto a genética, quanto os fatores ambientais, têm um peso elevadíssimo naquilo em que um indivíduo se irá tornar. Por um lado, a base genética com que nascemos pode condicionar o sucesso de qualquer pessoa numa determinada atividade, por exemplo, a altura num potencial basquetebolista, ou, a mesma característica, em todos os jogadores mencionados acima para a prática de futebol. Por outro, o ambiente atua como algo influenciador numa pessoa, mesmo antes do seu nascimento, podendo atuar através dos hábitos da mãe durante a gravidez que sejam prejudiciais e, mais tarde, em fases críticas do desenvolvimento cognitivo, intelectual e físico. Para além disso, as diferentes experiências vividas são algo que se relaciona com a influência dos fatores ambientais, pois tudo pode alterar o trajeto de uma pessoa, pela exposição que alguém terá a eventos do quotidiano, tomando o exemplo da maneira com que os diferentes filhos de ex-jogadores de futebol lidaram com a expectativa criada à sua volta. Quem sabe, se não tivesse sido o fardo desse fator, hoje teríamos mais que um Zidane conhecido mundialmente!
Vídeos acerca deste tema que recomendamos:
https://www.youtube.com/watch?v=bttyP-UGVeE<br> (vídeo acima)
Bibliografia:
Baker, L. A. (2015). The biology of relationships: what behavioral genetics tells us about interactions among family members. De Paul Law Review, 56(3), 837-846.
Ribeiro, D. et al. (2020). Genetic variation in the social environment affects behavioral phenotypes of oxytocin receptor mutants in zebrafish. Ecology, Neuroscience, 9, e56973. https://doi.org/10.7554/eLife.56973