Ser inteligente ou ser inteligente?
Será que és inteligente? Testes de QI são fiáveis? Até que ponto conseguimos regular-nos?

Ao longo dos dois últimos séculos, a definição, conceito e interpretação da inteligência evoluíram de forma bastante significativa. No início do século XX, apenas era tida em conta uma inteligência lógico-matemática, analisada e quantificada através de testes de QI, esta foi-se desenvolvendo para um modelo de inteligência triárquica, o que envolve as inteligências analítica, criativa e prática, até atingir o defendido atualmente, isto é, existirem nove tipos diferentes de inteligências, baseadas em competências essenciais que indivíduos distintos podem possuir a maior ou menor nível.
Alfred Binet, pedagogo e psicólogo francês, foi pioneiro na utilização dos testes de inteligência para categorizar os indivíduos, de forma a prever se seriam capazes ou incapazes de realizar determinadas tarefas com eficiência. Porém, aquilo que o francês não tinha em conta era a possibilidade de não existir apenas um tipo de inteligência, sendo atualmente defendida a existência de vários géneros de inteligências (até nove), com métodos de avaliação muito diferentes.

Teoria Triárquica da Inteligência
Na década de 80, Robert Sternberg desenvolveu um teoria a que deu o nome de Teoria Triárquica da Inteligência. Segundo a teoria triárquica, a inteligência compreende três aspetos, os quais tratam da relação da inteligência com o mundo interno da pessoa, com a experiência e com o mundo externo. Na figura abaixo é possível analisar, de forma simples, as partes da teoria de Sternberg e suas inter-relações.

a) Inteligência analítica - consiste naquela que é habitualmente conotada como inteligência, isto é, associada às tarefas escolares ou formativas, ao processamento da informação, aos processos executivos de planeamento e resolução de problemas em situações teóricas ou abstratas;
b) Inteligência criativa - é associada à capacidade de lidar com novas experiências, através da manipulação de informação na geração de alternativas, na criatividade e adaptabilidade a determinadas circunstâncias que surjam.
c) Inteligência prática - caracteriza-se pela capacidade de adaptação ao contexto, às situações práticas do quotidiano, nomeadamente na relação com o próprio, com os outros e com as diferentes situações ou tarefas.
Neste sentido, a Teoria Triárquica da Inteligência argumenta que esta se manifesta na interação com o meio, enquanto processo no qual participam fatores internos (cognitivos e de personalidade) e externos (o outro e o contexto) ao indivíduo, sendo por isso integrada e designada por inteligência funcional.
Teoria das Inteligências Múltiplas
A teoria das inteligências múltiplas desenvolvida por Howard Gardner caracteriza e divide as inteligências humanas em 9 tipos. Para Gardner todos os seres humano possuem 9 inteligências, mas cada um de nós têm discrepâncias no seu desenvolvimento específico.

Assim, tome-se o exemplo de um indivíduo A, que tenha mais capacidade de memorização visual e visão espacial (capacidades ligadas à inteligência espacial), que um indivíduo B, e, por isso, tem mais facilidade em certas tarefas em que seja necessário uma memória mais fotográfica, ou na visualização de certas dimensões. Mas, imagine-se que, o indivíduo B, apesar de não possuir as virtudes do A, tenha mais capacidade de se movimentar fisicamente e de aprender através do movimento, interagindo melhor como seu próprio corpo e fazendo uma relação mais apurada de si mesmo com o meio (inteligência corporal-cinestésica), é natural que este também tenha mais facilidades em determinadas tarefas que lhe sejam propostas, nomeadamente tarefas físicas. Posto isto, ambos têm inteligência bem desenvolvida, embora que em áreas completamente distintas.
Deste modo, estas são as nove inteligências segundo Gardner:
Inteligência Lógico-matemática: envolve facilidade de cálculo, de encontrar padrões e lógicas, bem como a habilidade do ser humano para lidar com raciocínios dedutivos. É uma inteligência características dos cientistas e Matemáticos e foi utilizada como referência nos testes de QI, tendo sido, por muito tempo, considerada o único padrão para avaliar o desempenho cognitivo de qualquer pessoa.
Inteligência Linguística: abrange a capacidade de comunicação, de aprender novas línguas e na utilização da linguagem de forma notória, quer por escrito, quer oralmente. Ademais, requer uma alta capacidade de argumentação e opinião e de desenvolver histórias e improvisos. É típica em escritores, jornalistas e linguistas.
Inteligência Espacial: está ligada à habilidade de interpretar e criar imagens, seja através da cor, da forma ou do uso do espaço físico. Pessoas como arquitetos, profissionais de moda, de artes visuais e de design utilizam-na bastante no dia-a-dia.
Inteligência Musical: distinguir diversos sons bem como apreciar estilos musicais , ritmos musicais e capacidade de compor e reproduzir música caracteriza este tipo de inteligência.
Inteligência Corporal-cinestésica: pressupõe coordenação motora do corpo de forma grossa ou fina, o controlo do corpo e execução de movimentos de forma harmoniosa e extremamente precisa, a par da capacidade de o levar ao limite.
Inteligência Interpessoal: entender motivações, preocupações e desejos de outras pessoas através da sociabilização, assim como comunicar e persuadir o outro Algo característico de professores, políticos, sociologistas e psicólogos.
Inteligência Intrapessoal: entender as próprias emoções, sentimentos e desejos, isto é, ter autocontrolo e conhecer-se a si mesmo.
Inteligência Naturalista: reconhecer as espécies animais, bem como estruturar os seus conhecimentos científicos de forma profunda, aptidão para lidar com a Natureza, seja com animais ou no cultivo de plantas, por exemplo.
Inteligência Existencialista: é a mais recente das inteligências propostas e implica consciência do "eu" no universo em que esta inserido e a reflexão sobre aspetos da existência humana.

Em suma, estas duas teorias - a Triárquica da Inteligência e a das Inteligências Múltiplas - vieram valorizar muitas características (vistas acima) tão importantes, quanto a lógico-matemática (a única que era avaliada anteriormente), que, mesmo ainda não tendo o mesmo peso ao lado desta última se tornaram vistas como algo que também se deve louvar. Desta feita, "ser inteligente ou ser inteligente" torna-se uma maneira de passar a mensagem de que qualquer pessoa se consegue inserir em pelo menos um dos nove tipos de inteligência enunciados, com a oportunidade de se desenvolver em cada uma delas até certo ponto.
Os testes de QI (Quociente de Inteligência)

QI significa Quociente de Inteligência e é um fator que mede a inteligência das pessoas com base nos resultados de testes específicos. O QI mede o desempenho cognitivo de um indivíduo, normalmente, a partir de exercícios com o intuito de avaliar a aptidão matemática e lógica, pela resolução de problemas de cálculo, ordenação, entre outros.
Para além disso, estes testes eram utilizados, em meados do século XX, como ferramenta que determinaria o nível de inteligência de qualquer pessoa, algo que se veio a provar ineficaz para esse propósito, pela falta de validade no método, através da intervenção de Howard Gardner - já abordado e explicado acima - na área das inteligências. Este cientista defendeu que existem vários tipos de competências que são fundamentais a qualquer humano, que não estariam a ser devidamente valorizadas neste tipo de "medidor" de QI, estando a ser unicamente avaliadas as capacidades lógico-matemáticas do indivíduo. Assim, como já referido anteriormente, as variadas inteligências não eram abrangidas por estes testes, sendo necessária a invenção de algo adaptado a cada uma, para determinar de forma eficaz o nível de inteligência de uma certa pessoa, em cada parâmetro existente.

As escalas de inteligência foram propostas pelo psicólogo Lewis Madison Terman (1877-1956), com base em vários trabalhos sobre crianças superdotadas.
Através da fórmula:
QI = 100 x IM/IC
(IM- Idade Mental; IC- Idade Cronológica)
Lewis classificou o resultado superior a 140 como genialidade e os valores inferiores a 70 como raciocínio lento.

Autorregulação
Definição: habilidade de monitorar e modular a emoção, a cognição e o comportamento, para atingir um objetivo e/ou adaptar às demandas cognitivas e sociais para situações específicas (Sroufe, 1995). Do controlo externo passa a haver uma regulação interna, decorrente do processo de internalização e controlo voluntário mediado pelo próprio indivíduo.
O teste do Marshmallow
Desenvolvido por Walter Mischel, um importante psicólogo austro-norte-americano, o teste do Marshmallow, pretendia avaliar a capacidade de autorregulação do ser humano, neste caso em crianças dos 4 aos 6 anos.
Este teste consistia em isolar uma criança numa divisão que possuía apenas uma cadeira e uma mesa, em que um marshmallow estava pousado. Previamente, as crianças foram informadas de que, caso não comessem o doce durante quinze minutos, seriam recompensadas com um segundo marshmallow. Desta forma, todos eles teriam de optar por tomar uma decisão: comer logo o marshamallow, não tendo direito a outro, mas sem ter de esperar quinze minutos pela recompensa; ou esperar esse período e serem recompensados com o prometido, obtendo o prazer de comer a guloseima a dobrar, embora que mais tarde.
Deste modo, como a sala estava totalmente desprovida de distrações, sem brinquedos, livros e móveis, ter domínio de si próprio em tais condições era quase uma "façanha heroica" para uma criança de 4 anos. Assim, o objetivo desta experiência foi observar quem seria capaz de suportar este "sofrimento ", de maneira a perceber se algum conseguiria controlar os seus impulsos para poder ter um deleito redobrado.

Os principais fatores que giram em torno da experiência é o autocontrolo e os seus benefícios. As crianças sabiam que poderiam usufruir de um benefício caso se controlassem: elas teriam um doce em dose dupla. A dificuldade é que o desejo de ter prazer no presente pode dificultar a espera, exigindo muita força interior. Algumas crianças conseguiram isso, mas outras não. Aquelas que optavam pelo prazer imediato — o que é muito mais fácil — não recebiam a recompensa depois.
Um ponto interessante é que este estudo não se limitou à realização do teste na sala, uma vez que as crianças foram acompanhadas por largos anos, a fim de enriquecer mais os resultados.
Segundo o autor da experiência, aquelas que agiram com autocontrolo durante o teste demonstraram ter mais autoestima no futuro e, além de serem mais saudáveis, também tiveram melhor desempenho na escola e no trabalho.
Isso significa que o mesmo autocontrolo que as beneficiou no teste, foi, provavelmente, vantajoso no decorrer das suas vidas. Na hora de tomar decisões, essas pessoas conseguiam abrir mão de um prazer imediato para obter uma vantagem maior no futuro.
No entanto, posteriormente, Mischel alertou que a falta de autocontrolo não seria algo irremediável, ou seja, não faria sentido considerar que uma criança que não demonstrasse ter uma grande capacidade de autocontrolo no teste nunca a teria. Assim, tudo isto pode ser aprendido e treinado durante a vida de cada um.
Concluindo, os resultados dos testes realizados, demonstram a importância que o autocontrolo e a força de vontade possuem no rumo da vida, uma vez que uma atitude tão simples por parte de uma criança se veio a refletir na sua vida adulta, podendo-se assumir isso pelo elevado número de casos analisados. Apesar de tudo isso, é natural que muitos outros fatores tenham intervindo no destino de cada estudado, mas não se pode menosprezar os dados finais recolhidos por Walter Mischel.
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Bibliografia:
Ganda, D. R., & Boruchovitch, E. (2018). A autorregulação da aprendizagem: principais conceitos e modelos teóricos. Psicologia da Educação, 46(1), 71-80. https: doi/10.5935/2175-3520.20180008
Novikobas, A. C. S., & Lamari Maia, L. B. (2020). Conceitos de inteligência e a teoria das inteligências múltiplas. Revista Científica Eletrônica de Ciências Aplicadas da FAIT.