Crenças morais, empatia e justiça percebida

17-04-2024

Como é que o ser humano se torna um ser moral? Como aprende a distinguir o certo do errado? As respostas filosóficas são tão díspares, quanto interessantes. Segundo Agostinho de Hipona, este já nasce depravado e inclinado a escolher, naturalmente, o mal, enquanto Jean-Jacques Rousseau consta que o ser humano é, originalmente, bom, mas que se corrompe pelo contacto social. Mais tarde, numa abordagem psicodinâmica, Sigmund Freud dava explicações, como a repressão das pulsões (a influência do superego), para a origem da moral.

Teoria dos estádios de desenvolvimento moral de Kohlberg 

Segundo Kohlberg, o desenvolvimento moral baseia-se em 3 grandes níveis (1. Pré-Convencional, 2. Convencional e 3. Pós-Convencional), na qual cada nível contém 2 estádios. Estes estádios são qualitativamente diferentes, estão relacionados com a idade e contemplam um sistema organizacional novo e compreensivo. Para Kohlberg as pessoas progridem no seu raciocínio moral e esta progressão  divide-se por 6 estágios, os quais são atravessados numa sequência invariante, sendo necessário passar por um mais básico, para progredir para o próximo, que será, necessariamente mais complexo.

O primeiro nível, o Pré-Convencional, está presente até aos 9 anos de idade e é aquele que encontramos no ensino básico escolar. Nesta etapa, a criança toma um determinado comportamento apenas por ser instruída a realizá-lo por uma figura da autoridade, como pais ou professores. Estes atos devem, de modo geral, seguir as normas socialmente aceitáveis, já que as figuras de autoridade tencionam desenvolver o indivíduo da melhor maneira possível, com os valores e atitudes corretas. Este tipo de obediência pode ser conseguido através do uso da ameaça e da punição, sendo que os dois estádios são: 1º-Moralidade Heterónoma, que se baseia em evitar a quebra de regras, que conduza à punição por parte das figuras de autoridade, que possuem poder sobre a criança; 2º-Individualismo, Propósito e Troca Instrumental, em que as crianças seguem as regras apenas se isso for do interesse imediato de alguém, caso contrário agem de acordo com os seus interesses e necessidades.

A segunda fase, Convencional, surge no momento em que a criança começa a ter a perceção das ações corretas e incorretas, percebendo que deve sempre seguir as corretas, uma vez que já terão adquirido os valores e boas relações aceites socialmente. A partir deste ponto, a moralidade do indivíduo torna-se a observada na sociedade, daí o nome "convencional", surgindo desde os 10 anos até à adolescência e dividindo-se em dois estágios: 3º-Expectativas e Relações Interpessoais Mútuas e Conformidade Interpessoal, no qual os jovens vivem de acordo com aquilo que é esperado por parte de terceiros, já tendo uma perceção do "bom" e "mau" definida; 4º-Sistema Social e Consciência, onde o indivíduo protege as leis, evitando a quebra do sistema, exceto em casos em que estas entrem em conflito com deveres morais fixados.

A terceira, e última fase, a Pós-Convencional, fase a que, segundo Kohlberg, a maioria dos adultos não chega a alcançar, isto deve-se a, neste nível, existirem valores e princípios que estão sobrejacentes a qualquer regra imposta ou palavra de autoridade. Os seus estágios são: 5º-Contrato Social, em que existe a consciência da presença de uma variedade de valores e opiniões, que podem nem ser relativos a grupos sociais a que o indivíduo pertença, por exemplo, essas regras relativas devem ser mantidas, constituindo o tal "Contrato Social"; 6º-Princípios Éticos Universais, no qual o indivíduo segue os princípios éticos escolhidos por si, nos momentos em que as leis violam esses princípios, para além disso, existe a crença na validade de princípios morais universais e um sentido de compromisso para com eles.

Críticas gerais aos Estágios de Kohlberg


Kohlberg entrevistou 72 jovens de 10, 13 e 16 anos dos arredores de Chicago. Metade era de classe média alta e a outra metade, classe média trabalhadora. Acompanhou longitudinalmente alguns dos sujeitos por cerca de 20 anos. Apresentou-lhes uma série de dez dilemas morais, sem importar em encontrar a resposta "correta", mas que eles o explicassem como chegaram a conclusões.

A conceção de desenvolvimento moral de Kohlberg baseia-se no pensamento e na lógica, não nos sentimentos pelos outros. Da mesma forma, Kohlberg acreditava que a moral se baseava na idade e na "sabedoria" e não na experiência da vida real e na identificação empática com os outros. Mas as crianças de 3 e 4 anos podem ter empatia pelos outros e tentar ajudar. Cuidar não requer alto nível de escolaridade ou idade avançada, requer sentimentos. Coles (1986) descreve algumas crianças e adolescentes de moral impressionante. Algumas crianças enfrentaram multidões de adultos injustos. Por último, o foco de Kohlberg está no indivíduo, e não no que constitui uma comunidade moral. Assim, ele não equilibra uma orientação própria em oposição a uma orientação grupal. Ele não faz, como fizeram os gregos, a pergunta "o que realizaria o maior bem para o maior número de pessoas?" E ele não questiona, como fazem os Quakers, a moralidade de resolver questões através do voto (resultando em apenas 51% impondo - muitas vezes com alegria - as suas preferências aos restantes 49%) em vez de por consenso (todos concordar com um compromisso cuidadosamente considerado). No entanto, estas etapas podem ser uma forma útil de começar a avaliar a própria moral. Uma segunda crítica ao trabalho de Kohlberg foi feita por Carol Gilligan em seu popular livro, "In a Different Voice: Psychological Theory and Women's Development" (1982). A teoria de Kohlberg, disse Gilligan, enfatiza a justiça em detrimento de outros valores. Como consequência disso, pode não abordar adequadamente os argumentos de pessoas que valorizam outros aspetos morais das ações. Gilligan argumentou que a teoria de Kohlberg é excessivamente Andro Centrica, já que foi o resultado de uma pesquisa empírica, utilizando apenas participantes do sexo masculino. Gilligan argumentou que a teoria de Kohlberg, portanto, não descrevia adequadamente as preocupações das mulheres. 

A filósofa e psicóloga desenvolveu uma teoria alternativa de raciocínio moral baseada no valor do cuidado. Ao ouvir as experiências das mulheres, Gilligan sugeriu que uma moralidade do cuidado pode servir no lugar da moralidade da justiça e dos direitos defendida por Kohlberg. Na sua opinião, a moralidade do cuidado e da responsabilidade tem como premissa a não-violência, enquanto a moralidade da justiça e dos direitos se baseia na igualdade. Outra forma de olhar para estas diferenças é ver estas duas moralidades como proporcionando duas injunções distintas – a injunção para não tratar os outros injustamente (justiça) e a injunção para não se afastar de alguém necessitado (cuidados). Ela apresenta essas moralidades como distintas, embora potencialmente conectadas. Gilligan argumentou que a moralidade do cuidado enfatiza a interconexão e presumivelmente emerge em maior grau nas meninas devido à sua ligação precoce na formação da identidade com as suas mães. A moralidade da justiça, por outro lado, emerge no contexto da coordenação das interações de indivíduos autónomos. Uma orientação moral baseada na justiça foi proposta como mais prevalente entre os rapazes porque as suas relações de apego com a mãe e a subsequente formação da identidade masculina implicavam que os rapazes se separassem dessa relação e se individualizassem da mãe. Para os rapazes, esta separação também aumenta a sua consciência da diferença nas relações de poder entre eles e os adultos e, portanto, gera um conjunto intenso de preocupações sobre as desigualdades. As raparigas, por outro lado, devido ao seu apego contínuo às suas mães, não estão tão conscientes de tais desigualdades e estão, assim, menos preocupadas com a questão da justiça.

Para Kohlberg nem todos progrediam por esses estágios. Somente uns poucos (citou Gandhi, Thoureau e Martin Luther King) chegam ao estágio 6. Mas todos em potencial podem alcançar esses estágios, que progridem conforme a idade

Teoria de Jean Piaget

A par de todos os psicólogos anteriormente referidos, Jean Piaget deu um grande passo nesta área do pensamento filosófico e conhecimento psicológico, ao notar que a formação moral é construída e difere entre a construção da moralidade extrínseca e a internalizada. Este psicólogo em particular também criou uma teoria, de forma a tentar explicar o desenvolvimento moral do ser humano, assim como a sua aquisição de crenças morais, empatia pelo próximo e perceção de justiça. A dimensão moral do desenvolvimento Psicológico, segundo Piaget,refere-se ao respeito pelas normas sociais, o desenvolvimento do sentido de justiça, igualdade e de reciprocidade e é enunciada dividindo-se em três fases:

  • Pré- Moral /Anomia, do nascimento aos cinco anos (ausência de normas - não existe conhecimento da criança sobre normas (a educação é tentativa erro ou aprendizagem familiar).
  • Realismo Moral, dos cinco aos dez ou onze anos (moral heterónoma) a fase em que é incutida à criança o que é moralmente correto fazer de acordo com a sociedade. A criança age de acordo com aquilo que lhe é exposto como correto.
  • Relativismo Moral, após os doze anos (moral autónoma), em que o indivíduo já age de acordo com as normas sociais, por já as ter aprendido e adquirido definitivamente, respeitando-as sempre.


Biblio e Webgrafia:

IPDJ (2014). Código de Ética Desportiva, Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P.

Moreira, C. & Pestana, G. (2012) Algumas Reflexões Sobre a Ética Desportiva. Revista de Desporto e Saúde da Fundação Técnica e Científica do Desporto, 4(3), 95-101.

Verywellmind, Kohlberg's Theory of Moral Development. Retirado de https://www.verywellmind.com/kohlbergs-theory-of-moral-development-2795071 ,consultado a 17/4/2024

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